Música e o envelhecimento

A Música e o Envelhecimento

Introdução

A musicoterapia é uma forma de tratamento em que o consulente, através do canal sonoro-musical, dará saída à sua criatividade estimulando as suas capacidades física, mentais, cognitivas e sociais, quer seja em grupo ou individualmente (Bruscia, 2000).

Cabe ao musico-terapeuta estudar e investigar com todo o rigor científico à sua disposição, os processos que relacionam a música e terapia, cérebro e comportamento, emoção e razão, assim como a utilização da música e os componentes que a compõem, como objectos mediadores na relação musico-terapêutica. O estudo também se deve reportar às épocas, em que a medicina e a musica eram a fusão das alternativas de tratamento, como ainda hoje é observado na maioria das denominadas “culturas primitivas” (Bruscia, 2000).

Com o avanço das pesquisas científicas no que respeita aos desafios do envelhecimento, assim como dos estudos funcionais da música no ser humano, as várias modalidades de tratamento foram surgindo como complementos ao tratamento médico convencional. Com o resultado positivo dessas formas de tratamento as mesmas acabaram por ser indicadas como terapia principal, é certos casos. A forma de como o cérebro processa a música, sempre fascinou os neuro-cientistas, e recentemente o processamento da música tem-se tornado numa área de intenso e sistémico estudo, publicados recentemente sobre neurociência cognitiva da música (Peretz, Zatorre, 2005).

Actualmente os avanços do tratamento através da música nos idosos vem adquirindo um enorme sucesso devido aos resultados que este tipo de terapia vem demonstrando, bem como as pesquisas que relacionam a música e as funções cerebrais, principalmente nas áreas cognitivas e límbicas, que influenciam de forma marcante os resgates da memória e na activação psicofísica, juntando comando e movimento e a razão e emoção.

Cada vez mais o uso da música como terapia nas pessoas idosas, estimula-os a cantar, tocar, improvisar, criar e recriar musicalmente, o redescobrir das canções que fizeram e fazem parte das suas vidas. O trabalho de musicoterapia vive na procura da excelência no tratamento, em estudos de investigação.

Desenvolvendo o potencial criativo através da linguagem musical, o tratamento auxilia directamente no resgate da identidade sonora do consulente, tendo por consequência a elevação da sua auto-estima e auto-confiança.

A musicoterapia tem sido de extrema importância para a terceira idade no que respeita ao resgate de memórias, como tratamento complementar nos casos de Alzheimer, doença de Parkinson e em indivíduos com sequela de acidente vascular cerebral, sendo reconhecida mundialmente. Do mesmo modo é bastante conhecida a sua eficácia na manutenção das funções cognitivas, elevação, auto-estima e sociabilização com os idosos, residentes em instituições, bem como fora delas, que em grupo ou individualmente.

A Música e o Envelhecimento

A música sempre acompanhou envelhecer da humanidade, dando sentido aos momentos e às épocas, reflectindo os sentimentos e sonorizando as realidades. A sua capacidade de transcender o tempo, a música ultrapassa não só séculos e décadas, como também premeia as diferentes culturas e gerações inteiras, demonstrando as diferenças e semelhanças entre elas. Onde quer que haja um povo, uma cultura, a música está presente, nos rituais de passagem, nos de fecundidade e nascimento, nos rituais de cura e morte (Wisnik, 1989).

Nunca houve nem haverá um povo sem música. Reflectir sobre o que é e o que significa a música, a sua influência no ser humano é um facto antigo e ao mesmo tempo actual e necessário para quem decide trabalhar nesta área.

Remontemos às épocas mais arcaicas, em que a música sempre teve o seu poder social, regulador, agregador e também manteve a crença a crença do homem durante os tempos em relação ao seu poder de curador e regenerador. Na Grécia antiga o homem estudava as funções e o poder da música. Pitágoras, seis séculos antes de Cristo já associava a música á matemática. O uso da música na formação do Homem, nas suas funções psicologias, físicas e sociais, de valor estético e ético, é encontrado nos estudos de grandes filósofos como Platão e Aristóteles (Sacks, 1998 – Abdounur, 1999).

Mais do que valorizarmos o pensamento analógico, ou seja, associarmos várias formas de conhecimento como filosofia, a música, a musicoterapia medicina, a matemática e a psicologia cabe-nos compreender a importância desse pensamento na formulação de conceitos e associações nas diferentes áreas de conhecimento, possibilitando-nos caminhar pela complementaridade, orientados pela concepção integradora que interliga os vário tipos de saberes.

Para se entender um pouco melhor esta forma de arte e comunicação, surge a necessidade de definirmos o que é musica.

O que é música?

Quem a inventou?

Para que fazemos música?

O que a música pode produzir em nós?

O que produzimos a partir dela?

Muitas são as questões que devemos responder antes usarmos a música como terapia, as suas funções e aplicabilidade.

A música, anteriormente a qualquer definição, é um produto da inteligência do homem, palavra de origem grega, a arte das musas, combina sons e silêncios proporcionando ao homem uma forma de comunicação sem precedentes. A criação e a recriação do musical têm como elementos primordiais o pensar e o sentir humano, estruturados em ritmos, melodias e harmonias, possuindo como fusão a razão e a emoção. A música vincula a capacidade de criar e recriar do indivíduo, o que produzimos através dela ou o que ela nos provoca é um vai e vem constante. A música é o elo da superfície à profundidade em nós próprios, é um canal de comunicação directo dos nossos sentimentos e expressões, estabelecendo as nossas diferenças e semelhanças com o outro.

A música faz-nos comunicar mesmo quando essa comunicação se torna difícil em face das diferentes culturas, é por ela e com ela, que muitas vezes, podemos entender o modo de ser de um povo e de um indivíduo, reflecte o que se conserva na memória e consegue resgatar reminiscências, reestruturando a história colectiva e individual, do macrocosmo ao microcosmo. Esta forma de linguagem, pelo seu carácter de universalidade, possui a capacidade de fundir e ligar culturas, sentimentos e emoções ao mesmo tempo que as diferencia (Sousa, 1997)

Porquê fazer música? Nós fazemos música para nos escutarmos nela (Sousa, 1996)

A Velhice e a Música

O processo de envelhecimento acompanha o indivíduo desde a sua concepção e caminha com ele durante a sua vida. A velhice, assim como a música pertencem ao tempo, um tempo que marca o corpo e constrói a memória, As músicas das nossas vidas fazem parte dessa construção, são canções a embalar, as músicas de escola, os brinquedos cantados, as canções cívicas as canções de amor, de amizade, enfim, de todos os tempos e sentimentos.

Através das canções de uma vida inteira é possível relembrar momentos que, apesar de individuais, não deixam de ser colectivos. Marcaram uma determinada fase da vida, uma geração, uma época. A música caminha ao lado do tempo reflectindo-o e transformando-o a cada mudança. “A canção que pertence à infância de uma pessoa de 90 anos pode ser a ponte que liga as infâncias de diferentes gerações, é maravilhoso saber que a canção com a qual fomos embalados, também embalou os nossos avós, pais, filhos. Irmãos e pessoas que não conhecemos, que nunca as vimos?” (Sousa, 1997, p.9)

A questão da velhice tem como espelho a sociedade à qual o individuo pertence, a musica acompanhará o seu processo de envelhecimento, marcando as épocas e os acontecimentos sociais, ao marcar um tempo, a canção, pelo sei vinculo afectivo, pode resgatar o fio melódico da vida do individuo, ao retratar todas as suas no contexto sonoro-musical. Tais acontecimentos vinculam as vivências pessoais e intransferíveis à vivências sociais e colectivas (Sousa, Assumpção, Landrino, 1994).

A musicoterapia tem como função principal no tratamento com a terceira idade, restabelecer a auto-estima do idoso mediante as suas potencialidades, ao meio que o cerca e a que pertence. Ao restituir a capacidade de crença em si mesmo e do seu potencial como indivíduo, o idoso estabelece uma posição positiva perante a sociedade, alterando para melhor o conceito que a sociedade tem dele e de si mesmo.

A Musicoterapia na Reabilitação nos Idosos

É importante abordar a questão da reabilitação em todas a suas vertentes de actuação, no tratamento musicoterapêutico. O idoso terá a oportunidade numa primeira abordagem, de estimular as suas actividades cognitivas e a partir delas alcançar outras funções cognitivas, como o acto de tocar, cantar, improvisar, criar e partilhar experiências, entre outra actividades, o idoso elabora exercícios mentais mais complexos a partir da sua produção sonoro-músical e é estimulado a retomar movimentos corporais ao mesmo tempo que em que vê resgatada a sua memória como um todo (Souza, 1997)

Estas acções proporcionam um campo fértil para novas descobertas, contribuindo para o desenvolvimento mental, cognitivo, físico, biológico e social. Desta forma o idoso vê restituídas algumas funções, que tinha perdido devido ao processo de envelhecimento normal. Resultantes do seu trabalho.

Estimular o potencial do indivíduo, reabilitando-o globalmente, é uma crença na sua capacidade como ser integral, e social, tratando-o como um ser bio-psico-social.

A musicoterapia visa o tratamento global do sujeito, encarando as suas funções como um todo, em que o indivíduo, assim como a música possuem elementos que constituem partes de um todo (Souza, 1997). A musica provoca reacções de vários tipos, em que a resposta a um estimulo musical se dá de forma motora e/ou mental. Principalmente a reacção a um estímulo musical dá-se nas diversas áreas cognitivas e emocionais, no qual o tempo de reacção é imediato.

O tratamento com a música proporciona um canal comunicação que associa a carga afectiva e emotiva do indivíduo às diversas funções e áreas cerebrais. A musicoterapia procura tratar o individuo a partir integração e da interacção dos hemisféricos cerebrais e as suas funções, que na verdade estes colaboram entre si.

O ser é ritmo, melodia e harmonia, quando estes elementos estão em sincronia, todo o conjunto vibra e soa como música para os ouvidos, este princípio equilibrador restitui ao indivíduo a sua capacidade de equilibrar as suas funções. Reabilitar é trazer de novo funções, adormecidas pelo facto de não serem utilizadas.

Vasco Fernandes

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